18.09.2015 2

Fernando Longhi - Da Arquitetura e Urbanismo Lacis/UnB

 

Quando recebi a notícia de que iria ao Japão eu não acreditei. Entre os mais de 400 candidatos eu havia sido selecionado para participar do Programa de Inovação da Universidade de Tóquio (Tokyo Innovation Summer Program). A ideia de visitar o país não era novidade, meu interesse pelo Japão começou desde a primeira e uma das únicas vezes que meus primos japoneses vieram ao Brasil juntamente de meu tio, que há mais de trinta anos mora com a esposa e os filhos por lá. A chance era única e eu mal sabia o que me esperava do outro lado do mundo

Éramos 42 estudantes, 21 estrangeiros e 21 japoneses da Universidade de Tóquio, todos de diferentes cursos e diferentes realidades. O ambiente interdisciplinar e multicultural era admirável, haviam representantes de todo o mundo: Finlândia, Índia, Filipinas, Tailândia, Colômbia, Estados Unidos, Singapura, China, Reino Unido e Alemanha. O caráter de excelência internacional do evento também era desafiador, meus colegas provinham das melhores universidades do mundo, como Oxford, Harvard, Stanford e Royal College of Arts, por exemplo.

Foram duas intensas semanas focadas na inovação como principal ferramenta para transformar problemas sociais locais e globais em oportunidades. A i.school, um projeto educacional da Universidade de Tóquio que tem o objetivo fomentar líderes inovadores, realizou o workshop que foi idealizado por Hideyuki Horii e Yu Ogawa.

O workshop era dividido em duas etapas: uma em Tóquio, onde tivemos aulas expositivas e seminários, e outra em Tono, onde tivemos a oportunidade de criar um workshop sobre inovação para os alunos do Ensino Médio da cidade, aplicando os conhecimentos adquiridos no período anterior. Desse modo, pudemos vivenciar duas faces contrastantes do Japão: a enérgica metrópole e a serena cidade interiorana japonesa. 

Os dias de workshop eram proveitosos, mas um tanto cansativos devido a quantidade de atividades desenvolvidas em um curto período de tempo. No programa de Tóquio ficamos alojados no Campus Komaba, tendo aulas em edifícios super modernos e campeões em eficiência energética. Nas aulas, um dos princípios mais enfocados pela i.school era que a criatividade poderia ser aprendida. Para isso, fomos introduzidos a uma série de metodologias para nos auxiliar na construção de ideias inovadores de qualidade e discussões em grupo. Tivemos duas frentes de estudo nessa etapa: uma voltada para a criação de serviços - Como atrair pessoas para as olimpíadas de Tóquio em 2020? -, e outra voltada para o projeto de um produto de livre escolha.

As atividades eram sempre desenvolvidas em grupos, que mudavam de acordo com a tarefa proposta. Normalmente o dia começava com uma breve introdução teórica, seguida da elaboração e concepção de ideias durante o dia e duas apresentações, uma intermediária e outra final na conclusão de cada workshop. Em alguns dias tínhamos até que elaborar protótipos em menos de uma hora e improvisar esquetes e apresentações para toda a equipe. Era sempre um desafio de mão dupla: apresentar uma ideia recém-nascida de forma clara e objetiva e não ter o medo de errar.

A segunda parte do programa foi na cidade de Tono, Iwate, que fica em Tohoku, a região mais afetada pelo triplo desastre de 2011 que ainda hoje enfrenta problemas relacionados aos acontecimentos. Uma das questões mais discutidas é a queda populacional impulsionada pela baixa perspectiva de vida e profissional que os jovens encontram nos pequenos núcleos urbanos da região.

Tono é uma cidade baseada na agricultura de subsistência e tem pouco mais de 28 mil habitantes. O objetivo de elaborar um workshop de inovação para os estudantes de lá visava mostrar as infinitas possibilidades que ideias inovadoras poderiam trazer para a cidade e semear uma vontade de mudança e revitalização para essa população.

Dessa vez, ficamos alojados por um fim-de-semana na casa de locais, juntamente dos alunos que futuramente fariam o nosso workshop. Essa certamente foi a melhor parte do programa pois tivemos um forte contato com a hospitalidade japonesa e pudemos compartilhar nossas experiências com os mais jovens, que achavam o máximo conhecer pessoas do mundo inteiro.

Organizar o workshop não foi fácil, mas foi emocionante ver a que ponto os alunos chegaram ao final e como conseguimos condensar todo o conhecimento adquirido nas semanas anteriores. Alguns estudantes começaram bem envergonhados, mas terminaram apresentando suas ideias finais com entusiasmo e muita coragem.

Um ponto importante dessa parte do programa foi ver a agitação da cidade em relação a nossa presença por lá. Eram curiosos e jornalistas para todo lado que documentavam o evento com muito interesse. Percebi a importância do evento na cidade ao final do programa, quando todos os grupos apresentaram suas ideias inovadoras para o prefeito e parte da comunidade.

Além da chance de aprender com profissionais de ponta e trocar experiências com pessoas incríveis, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais do Japão e sua cultura pelos olhos de meus colegas japoneses. Eles sempre tentavam nos proporcionar as melhores e mais interessantes experiências possíveis, como jantares em seus restaurantes de okonomyaki favoritos e passear nos parques que marcaram suas infâncias.

Fiquei fascinado com a beleza da cultura japonesa. Além das paisagens fantásticas e tecnologia avançada, o que mais me impressionou foi o respeito ao próximo incorporado no dia-a-dia japonês. As boas ações, as mais simples, faziam uma enorme diferença, como uma reação em cadeia: boa ação gerando boa ação. Lá, eu aprendi que o próximo tem mais importância que você mesmo.